Desafios para a Valorização da Herança Africana no Brasil: Reflexões e Caminhos Possíveis
A herança africana é um dos pilares fundamentais da identidade cultural brasileira. Manifestações como samba, capoeira, culinária e religiões de matriz africana são apenas algumas das influências que enriqueceram a formação do país. No entanto, apesar de sua relevância, a valorização desse legado ainda enfrenta grandes obstáculos. Além das expressões culturais amplamente reconhecidas, como samba e capoeira, a influência africana no Brasil se estende a diversas áreas, incluindo educação, cultura, ciência, matemática e engenharia. Esse legado multidimensional representa uma contribuição essencial para a construção do conhecimento no país, mas frequentemente é negligenciado devido à falta de reconhecimento e valorização.
O Legado Africano e o Racismo Estrutural
O racismo estrutural é um dos principais obstáculos à plena valorização da herança africana no Brasil. De acordo com Nascimento (1989), esse tipo de racismo ocorre quando a sociedade distribui privilégios e recursos de maneira desigual, perpetuando a exclusão de grupos racializados. Esse fenômeno se manifesta na marginalização histórica das contribuições culturais africanas e afro-brasileiras, restringindo o reconhecimento e a valorização dessa herança.
Educação: Pedagogias Afrocentradas
A pedagogia afrocentrada, por exemplo, oferece abordagens educacionais que valorizam as histórias e perspectivas africanas e afro-brasileiras. Educadores como Nilma Lino Gomes (2017) e Kabengele Munanga (2009) destacam que essas metodologias não apenas elevam a autoestima dos estudantes afrodescendentes, mas também promovem uma educação mais inclusiva, que reconhece e valoriza as diversas heranças culturais do Brasil. A adoção dessas pedagogias nas salas de aula é um passo importante no combate ao racismo estrutural e ao preconceito, incentivando uma educação mais crítica e igualitária.
Cultura: Artes Visuais, Literatura e Cinema
No universo das artes visuais e da literatura, artistas e escritores afro-brasileiros, como Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, expandiram a percepção da realidade brasileira ao abordar temas de resistência e identidade negra. Suas obras demonstram a riqueza e a beleza da herança africana, influenciando também o cinema, através de diretores como Zózimo Bulbul e cineastas contemporâneos que exploram a negritude e a cultura afro-brasileira. Embora essas produções culturais tenham sido marginalizadas por muito tempo, elas vêm conquistando espaço e reconhecimento, mas a luta pela visibilidade e valorização continua.
Ciência e Matemática: Conhecimentos Tradicionais e Técnicas de Contagem
No âmbito científico, a contribuição africana é ampla e abrange conhecimentos tradicionais que foram ignorados por séculos. Os povos africanos desenvolveram técnicas de contagem, sistemas de organização do tempo e métodos agrícolas sofisticados que impactaram a agricultura no Brasil. O legado em matemática e geometria, visível em construções e sistemas sociais, é frequentemente desconsiderado no ensino formal. De acordo com D’Ambrosio (2002), a etnomatemática valoriza esses saberes, evidenciando que a matemática não é exclusividade das culturas ocidentais, mas um campo de conhecimento que se enriquece com a diversidade.
Engenharia e Arquitetura: Construções e Técnicas Construtivas
Na engenharia e arquitetura, a influência africana se manifesta em técnicas construtivas tradicionais, como o uso de materiais naturais e edificações sustentáveis, adaptadas ao clima e ao ambiente. Muitos conhecimentos sobre métodos de construção e manejo do solo foram introduzidos no Brasil pelos africanos e aplicados em várias regiões, especialmente no Nordeste. A durabilidade das casas de taipa e adobe, por exemplo, reflete essa sabedoria, e hoje arquitetos e engenheiros buscam redescobrir essas práticas para promover construções mais ecológicas e sustentáveis.
A Educação como Instrumento de Valorização Cultural
Um dos principais desafios para valorizar a herança africana é a implementação da Lei nº 10.639/2003, que torna obrigatória a inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana nos currículos escolares (Brasil, 2003). Como destaca Gomes (2017), a aplicação dessa lei enfrenta obstáculos, como a falta de formação de professores e recursos adequados. Além disso, o sistema educacional brasileiro frequentemente ignora as diversas perspectivas históricas e culturais dos povos afrodescendentes, perpetuando a invisibilidade da contribuição africana.
Apropriação Cultural e Invisibilização
A apropriação cultural também representa um desafio. Termos e práticas culturais são frequentemente adotados sem o reconhecimento adequado do contexto histórico e das origens afro-brasileiras. Hall (1997) enfatiza que a cultura é moldada por processos de resistência e adaptação, mas quando elementos culturais são descontextualizados e consumidos, corre-se o risco de desrespeitar suas raízes e significados.
Caminhos para a Valorização Efetiva
Para valorizar genuinamente a herança africana no Brasil, é necessário implementar ações multidimensionais e integradas. Primeiramente, o fortalecimento da aplicação da Lei nº 10.639/2003 é essencial. Como sugere Lima (2020), investir na formação de professores, promover materiais inclusivos e garantir a representatividade afro-brasileira nos currículos pode contribuir para uma educação mais equitativa e representativa.
Além disso, a promoção de políticas culturais que incentivem as manifestações afro-brasileiras e a criação de espaços de valorização, como centros culturais e festivais, são fundamentais para celebrar e dar visibilidade à diversidade cultural do país. Como propõe Munanga (2009), reconhecer e valorizar a herança africana também é um passo importante para reparar historicamente os danos causados pelo colonialismo e pela escravidão.
Conclusão
A valorização da herança africana no Brasil transcende as manifestações culturais mais conhecidas, englobando contribuições essenciais em diversas áreas, como educação, ciência, matemática e engenharia. Reconhecer essa herança é crucial para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, que aprecia a importância das diferentes culturas e conhecimentos na formação do país. Valorizar a herança africana no Brasil representa um desafio que exige o comprometimento de toda a sociedade. Para honrar e reconhecer a contribuição africana na construção da identidade brasileira, é necessário enfrentar o racismo estrutural, implementar a educação inclusiva e combater a apropriação cultural. Ao promover a valorização dessa herança, avançamos em direção a uma sociedade mais justa, igualitária e representativa.
Referências
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Brasília, DF: Presidência da República, 2003. Disponível em: [link]. Acesso em: 25/04/2024.
G1. Tema da redação do Enem 2024 é desafios para a valorização da herança africana no Brasil. G1 Educação, 3 nov. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/enem/2024/noticia/2024/11/03/tema-da-redacao-do-enem-2024-e-desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil.ghtml. Acesso em: 03/11/2024.
GOMES, Nilma Lino. Educação e relações raciais no Brasil: desafios e possibilidades. Revista Brasileira de Educação, v. 22, n. 68, p. 1-24, 2017.
HALL, Stuart. Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. Thousand Oaks: Sage Publications, 1997.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Tema da redação: desafios para a valorização da herança africana no Brasil. Portal do Governo Federal, 3 nov. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/enem/tema-da-redacao-desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil. Acesso em: 03/11/2024.
LIMA, M. Implementação da Lei 10.639/2003: avanços e desafios. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as, v. 12, n. 2, p. 45-60, 2020.
MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na escola. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2009.
NASCIMENTO, Abdias do. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.
D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: Elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2002.
