Tema da redação do Enem 2024 é "Desafios para a valorização da herança africana"

 


Desafios para a Valorização da Herança Africana no Brasil: Reflexões e Caminhos Possíveis

A herança africana é um dos pilares fundamentais da identidade cultural brasileira. Manifestações como samba, capoeira, culinária e religiões de matriz africana são apenas algumas das influências que enriqueceram a formação do país. No entanto, apesar de sua relevância, a valorização desse legado ainda enfrenta grandes obstáculos. Além das expressões culturais amplamente reconhecidas, como samba e capoeira, a influência africana no Brasil se estende a diversas áreas, incluindo educação, cultura, ciência, matemática e engenharia. Esse legado multidimensional representa uma contribuição essencial para a construção do conhecimento no país, mas frequentemente é negligenciado devido à falta de reconhecimento e valorização.

O Legado Africano e o Racismo Estrutural

O racismo estrutural é um dos principais obstáculos à plena valorização da herança africana no Brasil. De acordo com Nascimento (1989), esse tipo de racismo ocorre quando a sociedade distribui privilégios e recursos de maneira desigual, perpetuando a exclusão de grupos racializados. Esse fenômeno se manifesta na marginalização histórica das contribuições culturais africanas e afro-brasileiras, restringindo o reconhecimento e a valorização dessa herança.

Educação: Pedagogias Afrocentradas

A pedagogia afrocentrada, por exemplo, oferece abordagens educacionais que valorizam as histórias e perspectivas africanas e afro-brasileiras. Educadores como Nilma Lino Gomes (2017) e Kabengele Munanga (2009) destacam que essas metodologias não apenas elevam a autoestima dos estudantes afrodescendentes, mas também promovem uma educação mais inclusiva, que reconhece e valoriza as diversas heranças culturais do Brasil. A adoção dessas pedagogias nas salas de aula é um passo importante no combate ao racismo estrutural e ao preconceito, incentivando uma educação mais crítica e igualitária.

Cultura: Artes Visuais, Literatura e Cinema

No universo das artes visuais e da literatura, artistas e escritores afro-brasileiros, como Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, expandiram a percepção da realidade brasileira ao abordar temas de resistência e identidade negra. Suas obras demonstram a riqueza e a beleza da herança africana, influenciando também o cinema, através de diretores como Zózimo Bulbul e cineastas contemporâneos que exploram a negritude e a cultura afro-brasileira. Embora essas produções culturais tenham sido marginalizadas por muito tempo, elas vêm conquistando espaço e reconhecimento, mas a luta pela visibilidade e valorização continua.

Ciência e Matemática: Conhecimentos Tradicionais e Técnicas de Contagem

No âmbito científico, a contribuição africana é ampla e abrange conhecimentos tradicionais que foram ignorados por séculos. Os povos africanos desenvolveram técnicas de contagem, sistemas de organização do tempo e métodos agrícolas sofisticados que impactaram a agricultura no Brasil. O legado em matemática e geometria, visível em construções e sistemas sociais, é frequentemente desconsiderado no ensino formal. De acordo com D’Ambrosio (2002), a etnomatemática valoriza esses saberes, evidenciando que a matemática não é exclusividade das culturas ocidentais, mas um campo de conhecimento que se enriquece com a diversidade.

Engenharia e Arquitetura: Construções e Técnicas Construtivas

Na engenharia e arquitetura, a influência africana se manifesta em técnicas construtivas tradicionais, como o uso de materiais naturais e edificações sustentáveis, adaptadas ao clima e ao ambiente. Muitos conhecimentos sobre métodos de construção e manejo do solo foram introduzidos no Brasil pelos africanos e aplicados em várias regiões, especialmente no Nordeste. A durabilidade das casas de taipa e adobe, por exemplo, reflete essa sabedoria, e hoje arquitetos e engenheiros buscam redescobrir essas práticas para promover construções mais ecológicas e sustentáveis.

A Educação como Instrumento de Valorização Cultural

Um dos principais desafios para valorizar a herança africana é a implementação da Lei nº 10.639/2003, que torna obrigatória a inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana nos currículos escolares (Brasil, 2003). Como destaca Gomes (2017), a aplicação dessa lei enfrenta obstáculos, como a falta de formação de professores e recursos adequados. Além disso, o sistema educacional brasileiro frequentemente ignora as diversas perspectivas históricas e culturais dos povos afrodescendentes, perpetuando a invisibilidade da contribuição africana.

Apropriação Cultural e Invisibilização

A apropriação cultural também representa um desafio. Termos e práticas culturais são frequentemente adotados sem o reconhecimento adequado do contexto histórico e das origens afro-brasileiras. Hall (1997) enfatiza que a cultura é moldada por processos de resistência e adaptação, mas quando elementos culturais são descontextualizados e consumidos, corre-se o risco de desrespeitar suas raízes e significados.

Caminhos para a Valorização Efetiva

Para valorizar genuinamente a herança africana no Brasil, é necessário implementar ações multidimensionais e integradas. Primeiramente, o fortalecimento da aplicação da Lei nº 10.639/2003 é essencial. Como sugere Lima (2020), investir na formação de professores, promover materiais inclusivos e garantir a representatividade afro-brasileira nos currículos pode contribuir para uma educação mais equitativa e representativa.

Além disso, a promoção de políticas culturais que incentivem as manifestações afro-brasileiras e a criação de espaços de valorização, como centros culturais e festivais, são fundamentais para celebrar e dar visibilidade à diversidade cultural do país. Como propõe Munanga (2009), reconhecer e valorizar a herança africana também é um passo importante para reparar historicamente os danos causados pelo colonialismo e pela escravidão.

Conclusão

A valorização da herança africana no Brasil transcende as manifestações culturais mais conhecidas, englobando contribuições essenciais em diversas áreas, como educação, ciência, matemática e engenharia. Reconhecer essa herança é crucial para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, que aprecia a importância das diferentes culturas e conhecimentos na formação do país. Valorizar a herança africana no Brasil representa um desafio que exige o comprometimento de toda a sociedade. Para honrar e reconhecer a contribuição africana na construção da identidade brasileira, é necessário enfrentar o racismo estrutural, implementar a educação inclusiva e combater a apropriação cultural. Ao promover a valorização dessa herança, avançamos em direção a uma sociedade mais justa, igualitária e representativa.

Referências

BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Brasília, DF: Presidência da República, 2003. Disponível em: [link]. Acesso em: 25/04/2024.

G1. Tema da redação do Enem 2024 é desafios para a valorização da herança africana no Brasil. G1 Educação, 3 nov. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/enem/2024/noticia/2024/11/03/tema-da-redacao-do-enem-2024-e-desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil.ghtml. Acesso em: 03/11/2024.

GOMES, Nilma Lino. Educação e relações raciais no Brasil: desafios e possibilidades. Revista Brasileira de Educação, v. 22, n. 68, p. 1-24, 2017.

HALL, Stuart. Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. Thousand Oaks: Sage Publications, 1997.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Tema da redação: desafios para a valorização da herança africana no Brasil. Portal do Governo Federal, 3 nov. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/enem/tema-da-redacao-desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil. Acesso em: 03/11/2024.

LIMA, M. Implementação da Lei 10.639/2003: avanços e desafios. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as, v. 12, n. 2, p. 45-60, 2020.

MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na escola. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2009.

NASCIMENTO, Abdias do. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: Elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2002.

Laís Rufino

Laís Vivian Oliveira Rufino é uma educadora negra e influenciadora pedagógica dedicada a promover a alfabetização e a inclusão de narrativas afrocentradas no ensino. Mãe do Daniel, ela realiza os sonhos de seus ancestrais através de seu trabalho como professora em uma escola pública na Maré, onde utiliza metodologias ativas e tecnologias para transformar o aprendizado. Fundadora do projeto Afrobetizar e criadora da HQ Turma do Ubuntu, Laís se propõe a interligar alfabetização e questões raciais, explorando a identidade e a herança cultural. Em sua dissertação de mestrado, defendida em fevereiro de 2024, investigou o percurso da construção de uma afrobetizadora, focando na criação de histórias em quadrinhos que reflitam as vivências e corporeidades das infâncias negras. Com uma abordagem que celebra a diversidade, Laís compartilha seu conhecimento e experiências no Instagram, promovendo o orgulho racial e a leitura de obras que discutem temas étnico-raciais. Com sua paleta de amarelo, amor por adinkras e água doce, ela busca criar um espaço de empoderamento e afirmação cultural na educação.

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